Operação Saramago

28 11 2008

No dia 23, à tarde fiquei sabendo que José Saramago faria o lançamento mundial de seu novo livro, A Viagem Do Elefante, aqui no Brasil no SESC Pinheiros. Fiquei sabendo também que os ingressos para participar do evento haviam acabado. Mas, como minha experiência em eventos esgotados já é larga, decidi sair do serviço e ir até o local do evento esperar para que algum desses Seres morresse pelos lugares remanescentes.

O legal desses eventos é a amizade efêmera que você faz (e eu sou mestre nisso, já leram este meu post?). Conheci três pessoas interessantes. O Leandro, um jovem escritor que acabou de conseguir que seu livro fosse lançado (quero saber quando terei o meu exemplar!); Juliana, uma jovem pedagoga de Campinas em São Paulo para ver a família e Saramago; Vera, uma mestranda em Psicopedagogia. Conversamos sobre as obras de Saramago, a adaptação de Ensaio Sobre A Cegueira por Meirelles, Gabriel Garcia Márquez e até sobre epifanias!

Deu a hora. Lá veio a moça entregando ingressos. Peguei o meu e fiquei super feliz, afinal, eu iria vê-lo em carne e osso, e não através de um telão =P

Pilar Del Rio, a esposa de Saramago, de forma muito alegre, falou sobre a obra e leu uma dedicatória para seu esposo. O amor deles é tão lindo, tão puro! Acho que é o último do mundo dessa forma. Ela é 28 anos mais nova que ele, e percebemos que este é um amor tão jovem e belo, que comove. Este livro é dedicado a ela com as seguintes palavras:

“A Pilar, que não deixou que eu morresse”

Tô quase acreditando no amor de novo!

Saramago discorreu sobre a vida. A primeira pergunta que respondeu foi como ele se via. Disse que era a melhor das imagens. Lisonjeiro e renunciador do tempo. Quanto à velhice, disse que esta é normal. Se esta não acontecesse agora, é porque havia acontecido antes.

Disse que uma vez disseram a ele que ele já havia ganho o prêmio Nobel, já tinha fama, e perguntaram o que queria mais. A resposta foi a mais lúcida possível: “Tempo e Vida. Tempo para ficar com Pilar e viver” , disse José Saramago.

Ele disse que é uma pessoa melancólica e reservada (me diga um grande escritor diferente XD), porém em palestras é capaz de falar por três a quatro horas sem parar.

Quanto à sua doença, disse que foi realmente grave e que os médicos lhe disseram que foi um milagre sua recuperação. Ateu que é, Saramago atribuiu sua recuperação ao bom trabalho dos médicos. Disse que a doença não transparece no livro. Que este foi escrito com uma sanidade interior nunca antes experimentada. O livro foi escrito em estado de pura felicidade.

Quanto à sua carreira, disse que nunca a planejou. Não é ambicioso, como alguns escritores que escrevem por fama (nessa hora senti uma alfinetada em Paulo Coelho devido a essa frase. Suas primeiras obras não eram rentáveis. Só tinha uma preocupação: “Não escrever nada que não fosse pensado”. Esse foi o motivo de haver um intervalo de 30 anos entre sua primeira obra, Terra Do Pecado – 1947, e a segunda, Manual De Pintura E Caligrafia – 1977. Ainda completou afirmando que não havia escrito nada nesse meio tempo, porque não havia nada para escrever que valesse a pena. Certíssimo.

Ainda sobre o livro A Viagem Do Elefante, Saramago comenta que sua linguagem é atual e anterior, ao mesmo tempo. Disse que se trata de uma linguagem próxima ao século XVI, ou anterior. Não sabe dizer com precisão a época. Nesta nova obra propôs que a linguagem e o enredo (dando ênfase a linguagem) fossem os condutores responsáveis pela trajetória do leitor ao final do livro.

“É um bom livro. Um livro bem escrito”

Saramago ainda renegou o rótulo de romance, ou prosa-poética para seu livro. Disse que o chamará de conto.

“Escrever é uma caixinha de surpresas (…) O livro vai fazendo-se e é o fazer do livro que faz o livro”

Saramago não está trabalhando em outro livro. Comparou-se com a terra que acaba de dar seus frutos e ser semeada. É momento de descansar. Não sabe se este é seu último livro. Quando escreveu As Intermitências Da Morte achou que seria o derradeiro. Mas sua imaginação, a fábrica de sonhos, tinha mais a dizer.

“Escrever é uma responsabilidade enorme (…) Quase uma relação autista entre o escritor e ele mesmo”

Daí veio uma declaração linda de amor. Voltando ao assunto da produção do livro em meio a grave doença que o acometeu, Saramago diz:

“Se tivesse morrido antes de conhecer Pilar, teria morrido muito mais velho do que sou hoje”.

E então a palestra acabou.

Fui direto para a fila tentar um autógrafo. Só que, devido a sua saúde debilitada, ele só iria autografar 150 livros. Meu número na fila? 300 e alguma coisa. Ainda tentei insistir. Conversei com a garota que estava organizando a fila do autógrafo e cometi o maior FAIL de minha vida!

Pedi a ela que me me deixasse entrar e tirar uma foto do Saramago autografando. Ela estava quase deixando quando eu soltei, Me deixa ficar ali onde está aquele “povinho”, ela, Povinho?! Aquele “povinho” são SOMENTE os organizadores do evento”. Nunca mais faço isso.

Mesmo assim uma alma iluminada pegou a máquina de umas cinco pessoas (incluindo a minha) e tirou fotos dele de pertinho. Não ficaram boas, mas é o que tem pra hoje XD Vocês podem ver no meu Flickr.

Desculpem pelo post enorme =)

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