Jean Charles – O Filme

30 06 2009

Jean Charles

Um mês após o assassinato de Jean Charles de Menezes, em 2005, Henrique Goldman foi chamado pela BBC para dirigir um documentário sobre o ocorrido. O diretor queria dar a visão do brasileiro e a rede britânica desejava a visão policial, para amenizar os fatos, e por essas diferenças de visão o projeto foi cancelado. Goldman não desistiu e resolveu retomar o projeto do início, reescrevendo-o para a ficção, mas ainda assim com traços de documentário, chamando não atores para interpretar a si mesmos, mostrando a dureza da vida dos imigrantes. E o filme fica nessa dualidade mal resolvida, sendo ora documentário, ora ficção e a identidade do filme se perdendo a cada minuto.

Com planos chapados, sem profundidade e “cortando” a cabeça de Sidney Magal (sim, O Meu Sangue Ferver Por Você), o roteiro tenta fazer com que o espectador se identifique com a vida de Jean Charles (Selton Mello) de modo forçado, repetitivo, apelativo, fácil, chato. O protagonista é apresentado como levando a vida no “jeitinho brasileiro”, trabalhando duro e levando parentes e amigos para o exterior com passaportes ilegais com a desculpa de que não era crime, ele estava ajudando amigos a ter uma vida melhor.

A verdade é que na vida de Jean Charles não há nada especial para se armar uma grande ficção, ou um filme “inspirado em uma história real” (sic). O espectador aguarda a morte de Jean, não pela morbidez com que ela é apresentada, mas em aguardo ao final do filme. E ele não acaba com o evento. O diretor ainda prolonga o filme na tentativa de sensibilizar o espectador mostrando dias depois da morte com a visita de representantes do governo do Reino Unido visitando a família Menezes e entregando um cheque de R$60.000,00 para cobrir os “gastos funerários”, além de mostrar que a vida dos familiares que estavam com ele no exterior continuou do mesmo modo.

Sim, o caso da morte de Jean Charles, confundido com um terrorista árabe ainda está aberto. E se o diretor tivesse se focado nesse assunto, juntado seu material para fazer um documentário e não tentar uma ficção, o filme provavelmente seria bem melhor, menos cansativo. Veja o trailer logo abaixo.

E este foi mais um filme ruim que vi na companhia de @GUSLanzetta! Leia a crítica dele aqui.





Valsa Com Bashir. Um Soco No Estômago

2 04 2009

Valsa Com Bashir

1982. As forças armadas Israelitas invadem o sul do Líbano após as cidades do norte de Israel terem sido bombardeadas por anos desde o território Libanês. Ariel Sharon, na época ministro da defesa de Israel, desejava garantir a presidência de Bashir Gemayel. Em troca da ajuda israelense, Ariel Sharon esperava de Gemayel, uma vez instalado como presidente, a assinatura de um tratado de paz com Israel, presumivelmente estabilizando para sempre a fronteira norte de Israel. Bashir se tornou um dos principais comandantes das Falanges Libanesas, uma milícia cristã de extrema-direita, apoiada por Israel, e que lutava contra os muçulmanos nacionalistas libaneses e os militantes palestinos. Ele liderou várias campanhas militares contra as tropas Sírias. Eleito presidente em 1982 com o apoio de Israel, Bashir morreu aos 35 anos vítima da explosão de uma bomba colocada na sede das Falanges, em Achrafieh, distrito cristão de Beirute, no mesmo ano.

A morte de Bashir desencadeou uma revolta das forças cristãs contra o Líbano. O ato mais conhecido foi o massacre de Sabra e Shatila, onde soldados matavam cruelmente refugiados civis palestinos. O massacre ocorreu em uma área diretamente controlada pelo exército israelense durante a invasão do Líbano. A Corte Suprema de Israel considerou o Ministro da Defesa do país, Ariel Sharon, pessoalmente responsável pelo massacre, por ter falhado na proteção aos refugiados. O número de vítimas não é bem conhecido e, conforme a fonte, a estimativa pode variar de algumas centenas a 3.500 pessoas. Sharon, quando candidato a Primeiro-ministro de Israel, lamentou as mortes e negou qualquer responsabilidade. A repercussão do massacre, entretanto, fez com que ele fosse demitido do cargo de Ministro da Defesa, na época.

26 Cães

Valsa com Bashir tem seu início em uma bar, quando o diretor Ari Folman se encontra com um velho amigo para conversar sobre um pesadelo recorrente. O amigo conta que todas as noites sonhava com exatamente 26 cães loucos por seu sangue. Os dois chegam à conclusão de que o pesadelo é uma lembrança do que o amigo viveu na guerra do Líbano. O diretor Ari Folman se surpreende pois sua mente apagou todas as lembranças daquele período em que serviu nas forças israelitas. Intrigado, ele decide visitar e entrevistar seus amigos e companheiros, pois sente necessário descobrir a verdade sobre aquele tempo e sobre si mesmo. A medida em que mergulha em seu passado, sua memória é ativada e imagens antes reprimidas vêm a tona.

O documentário tinha a necessidade de ser uma animação, extremamente bem feita, para colocar uma barreira visual entre o horror daquela época de guerra e os espectadores. O uso do lúdico, da animação para interpretar as memórias do diretor e de seus amigos, de alguma forma nos dá a dimensão da realidade. O espectador sente cada sentimento e loucura dos soldados. Cada dor e perda dos impotentes civis que estavam no meio de uma guerra política. A surpresa de que no final vemos as imagens reais do massacre de Junho de 1982, cadáveres de toda sorte de pessoas, desde crianças até senhores de idade. Os gritos das mulheres que perderam suas casas e família é simplesmente um soco no estômago. Ver do que o Ser Humano é capaz, se invalidar, negar a humanidade e ser nada menos do que seres irracionais, menos do que animais, nos amedronta, nos tira o fôlego.

O filme convida a discutirmos o rumo que nosso mundo esta tomando e o que fazemos para melhorá-lo. Não digo na questão de se armar e ir para a guerra, muito pelo contrário. O importante é buscar a paz em nosso dia a dia sem nunca nos esquecermos do passado. Manter o passado vivo e não repetir os erros. Esta é a lição que aprendi com Ari Folman.

P.S.: Assisti o filme na terça-feira, 31/03. Ganhei as entradas através do twitter do Omelete. O site oficial deles é esse aqui e também está nos links aí ao lado =)