Saramago e o Título Infeliz

22 06 2009

saramagoNeste Domingo, 21, foi publicada a entrevista que José Saramago forneceu ao site Clarin.com a respeito de seu blog e sobre alguns dos textos deste se tornarem um livro a ser publicado em 25 deste mês em Lisboa em um encontro com blogueiros e aberto a internautas de todo o mundo (ainda sem maiores detalhes).

O problema é que o título da matéria está sensacionalista: “Con los blogs se está escreviendo más, preo peor” e no Brasil o título do G1 não ficou atrás: “Blogs fazem pessoas escrevem pior, diz José Saramago“. Assim que li o título fiquei chateado e twittei a respeito da suposta rixa que Saramago tinha contra nós, blogueiros. Erro. Deveria ter lido a matéria primeiro para depois comentar. Foi o que fiz em seguida e constatei que a história é “um pouco muito diferente” (como diria a minha avó). Vejam:

¿Hay una forma distinta de escribir para el blog (más rápido, sin tanta corrección…)?

No falta quien piense mucho para responder: “La practica del blog ha llevado a la escritura a muchas personas que antes poco o nada escribían”. Lástima que muchas de ellas piensen que no merece la pena preocuparse con la calidad de estilo de lo que se escribe. El resultado está siendo que, a la vez que se escribe más, se está escribiendo peor. Personalmente cuido tanto del texto de un blog como de una página de novela.

Saramago concorda que a blogagem deu oportunidade a pessoas que antes estavam fadadas ao silêncio ter algum tipo de voz ativa através de um blog próprio. Porém ele lamenta que muitas dessas acham que não vale a pena se preocupar com a qualidade ou estilo daquilo que se escreve, e o resultado é que quanto mais tal pessoa escreve, está escrevendo pior. Ele ainda acrescenta que pessoalmente cuida do texto que postará no blog da mesma forma como cuida de uma página de seus livros.

Para quem se interessar, o blog do escritor José Saramago é O Caderno de Saramago, que está disponível em português e espanhol e é uma ótima opção de leitura.

Saramago já não nutre um grande afeto por jornalistas e ainda dão ênfase a uma frase que sem contexto é interpretada de maneira totalmente contrária a qual ela se destina. Espero que esse caso não siga adiante. Fiquemos atentos para novidades no dia 25 a respeito do lançamento desse livro. Caso exista algum stream do evento postarei aqui o link.

Rafagoom é admirador de Saramago, apartidário e às vezes presta atenção naquilo que escreve.





Operação Saramago

28 11 2008

No dia 23, à tarde fiquei sabendo que José Saramago faria o lançamento mundial de seu novo livro, A Viagem Do Elefante, aqui no Brasil no SESC Pinheiros. Fiquei sabendo também que os ingressos para participar do evento haviam acabado. Mas, como minha experiência em eventos esgotados já é larga, decidi sair do serviço e ir até o local do evento esperar para que algum desses Seres morresse pelos lugares remanescentes.

O legal desses eventos é a amizade efêmera que você faz (e eu sou mestre nisso, já leram este meu post?). Conheci três pessoas interessantes. O Leandro, um jovem escritor que acabou de conseguir que seu livro fosse lançado (quero saber quando terei o meu exemplar!); Juliana, uma jovem pedagoga de Campinas em São Paulo para ver a família e Saramago; Vera, uma mestranda em Psicopedagogia. Conversamos sobre as obras de Saramago, a adaptação de Ensaio Sobre A Cegueira por Meirelles, Gabriel Garcia Márquez e até sobre epifanias!

Deu a hora. Lá veio a moça entregando ingressos. Peguei o meu e fiquei super feliz, afinal, eu iria vê-lo em carne e osso, e não através de um telão =P

Pilar Del Rio, a esposa de Saramago, de forma muito alegre, falou sobre a obra e leu uma dedicatória para seu esposo. O amor deles é tão lindo, tão puro! Acho que é o último do mundo dessa forma. Ela é 28 anos mais nova que ele, e percebemos que este é um amor tão jovem e belo, que comove. Este livro é dedicado a ela com as seguintes palavras:

“A Pilar, que não deixou que eu morresse”

Tô quase acreditando no amor de novo!

Saramago discorreu sobre a vida. A primeira pergunta que respondeu foi como ele se via. Disse que era a melhor das imagens. Lisonjeiro e renunciador do tempo. Quanto à velhice, disse que esta é normal. Se esta não acontecesse agora, é porque havia acontecido antes.

Disse que uma vez disseram a ele que ele já havia ganho o prêmio Nobel, já tinha fama, e perguntaram o que queria mais. A resposta foi a mais lúcida possível: “Tempo e Vida. Tempo para ficar com Pilar e viver” , disse José Saramago.

Ele disse que é uma pessoa melancólica e reservada (me diga um grande escritor diferente XD), porém em palestras é capaz de falar por três a quatro horas sem parar.

Quanto à sua doença, disse que foi realmente grave e que os médicos lhe disseram que foi um milagre sua recuperação. Ateu que é, Saramago atribuiu sua recuperação ao bom trabalho dos médicos. Disse que a doença não transparece no livro. Que este foi escrito com uma sanidade interior nunca antes experimentada. O livro foi escrito em estado de pura felicidade.

Quanto à sua carreira, disse que nunca a planejou. Não é ambicioso, como alguns escritores que escrevem por fama (nessa hora senti uma alfinetada em Paulo Coelho devido a essa frase. Suas primeiras obras não eram rentáveis. Só tinha uma preocupação: “Não escrever nada que não fosse pensado”. Esse foi o motivo de haver um intervalo de 30 anos entre sua primeira obra, Terra Do Pecado – 1947, e a segunda, Manual De Pintura E Caligrafia – 1977. Ainda completou afirmando que não havia escrito nada nesse meio tempo, porque não havia nada para escrever que valesse a pena. Certíssimo.

Ainda sobre o livro A Viagem Do Elefante, Saramago comenta que sua linguagem é atual e anterior, ao mesmo tempo. Disse que se trata de uma linguagem próxima ao século XVI, ou anterior. Não sabe dizer com precisão a época. Nesta nova obra propôs que a linguagem e o enredo (dando ênfase a linguagem) fossem os condutores responsáveis pela trajetória do leitor ao final do livro.

“É um bom livro. Um livro bem escrito”

Saramago ainda renegou o rótulo de romance, ou prosa-poética para seu livro. Disse que o chamará de conto.

“Escrever é uma caixinha de surpresas (…) O livro vai fazendo-se e é o fazer do livro que faz o livro”

Saramago não está trabalhando em outro livro. Comparou-se com a terra que acaba de dar seus frutos e ser semeada. É momento de descansar. Não sabe se este é seu último livro. Quando escreveu As Intermitências Da Morte achou que seria o derradeiro. Mas sua imaginação, a fábrica de sonhos, tinha mais a dizer.

“Escrever é uma responsabilidade enorme (…) Quase uma relação autista entre o escritor e ele mesmo”

Daí veio uma declaração linda de amor. Voltando ao assunto da produção do livro em meio a grave doença que o acometeu, Saramago diz:

“Se tivesse morrido antes de conhecer Pilar, teria morrido muito mais velho do que sou hoje”.

E então a palestra acabou.

Fui direto para a fila tentar um autógrafo. Só que, devido a sua saúde debilitada, ele só iria autografar 150 livros. Meu número na fila? 300 e alguma coisa. Ainda tentei insistir. Conversei com a garota que estava organizando a fila do autógrafo e cometi o maior FAIL de minha vida!

Pedi a ela que me me deixasse entrar e tirar uma foto do Saramago autografando. Ela estava quase deixando quando eu soltei, Me deixa ficar ali onde está aquele “povinho”, ela, Povinho?! Aquele “povinho” são SOMENTE os organizadores do evento”. Nunca mais faço isso.

Mesmo assim uma alma iluminada pegou a máquina de umas cinco pessoas (incluindo a minha) e tirou fotos dele de pertinho. Não ficaram boas, mas é o que tem pra hoje XD Vocês podem ver no meu Flickr.

Desculpem pelo post enorme =)





Flutuando Na Cegueira

4 10 2008

Eu ainda não consigo acreditar, mas vamos lá.

A Federação Nacional dos Cegos dos Estados Unidos (não vou comentar o fato de ter sido nos Estados Unidos…), a NFB, declarou que o filme de Fernando Meirelles, homônimo à obra de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, tem conteúdo ofensivo, tratando os cegos como monstros.

Tanto na obra literária como a cinematográfica, pessoas normais são atingidas por uma epidemia de cegueira branca. Metáfora para a falta de comunicação, estupidez e egocentrismo que levam à irracionalidade dos seres humanos, fazendo com que esses se tornem piores que animais.

A NFB organizou uma série de protestos nas salas de exibição do filme.

Questionado a respeito pela emissora portuguesa TSF, Saramago respondeu: “A estupidez não discrimina os cegos dos que enxergam”. Não é a toa que é prêmio Nobel.

Vamos torcer para que essa cegueira estúpida dos nossos vizinhos americanos passe, e ajudem esse mundo a se libertar da cegueira social que vivemos hoje.

Essa vai para a coleção “O mundo acabou e só estamos aqui flutuando”

Mais sobre os protestos aqui e aqui.





José Saramago + Fernando Meirelles? No Cinema?

13 09 2008

Hoje foi a estréia do “Ensaio Sobre a Cegueira” (Que tem Gael Garcia Bernal =D). Sim o título é irônico! Eu AMO José Saramago e gosto muito do trabalho do Meirelles. Estou com muita vontade de assistir a adaptação de um dos livros que eu mais amo e mais me fez sentir mal na minha história literária.

Não sei se contei, mas sou formado em Letras e quero aprofundar mais meus estudos literários. So, eu leio muito e de tudo. Inclusive, tinha uma professora que se desconfiar que eu li os dois últimos do Harry Potter me mata me chamando de herege, traidor-do-sangue, e até me pincha uma maldição! Ela é puritana e não aceita livros comerciais. (HP é comercial sim, mas a muié fez crianças de 10 anos lerem mais de 1000 páginas, sendo que na escola sofremos pra fazer esses pivetes lerem 1, U-M-A! Tem meu respeito!)

Iniciei meu amor por Saramago com História do Cerco de Lisboa. Gente que livro lindo! Parece até estranho falar que Saramago é delicado, mas nesse livro ele usa uma interessante delicadeza ao descrever os sentimentos apaixonados de um revisor de textos já de uma certa idade, que se apaixona por sua nova editora. Se for ler, preste atenção na parte em que ele descreve os sentimentos de Raimundo Silva (o protagonista) ao escolher a rosa branca.

O livro é super recomendado. Saramago, mestre Nobel, usa seu dom de não utilizar pontuação de maneira magnífica. Se me assustei ao ver aqueles parágrafos enormes sem um único ponto de interrogação/exclamação/ponto final? Sim, e muito! Afinal foi minha primeira experiência “Saramagiana” (Adoro neologismos, vou fazer um post sobre isso =D). Mas confesso que depois de algum tempo a pontuação surge em sua mente, e você se vê tão envolvido na história do cerco a Lisboa e a história do cerco a Maria Sara (a editora) que o livro flui. É devorável e quando termina deixa aquele ar de quero mais. Aquele desejo de rever os personagens e ser feliz com suas histórias. Diferente do que senti ao final de Ensaio Sobre a Cegueira.

Cegueira é tenso. Não se sabe como começa, não se sabe como terminará. Um pilar da sociedade humana é retirado, no caso a visão, e ela, a sociedade, desmorona. O livro é uma crítica a condição fake que nossa sociedade se acostumou, e incentiva a ser mantida. Por isso você se incomoda. Você se identifica com um ou outro personagem, nem que seja apenas um traço de algum deles. O fato de Saramago não nomeá-los é ainda mais perturbador. Você se choca com as histórias de cada um. As dificuladades de se alimentar, se vestir, fazer as necessidades básicas, permanecer humano.

Chorei em várias partes do livro. Não tenho vergonha em confessar meus sentimentos. Uma coisa que aprendi neste livro foi isso. Não me amarrar a conceitos que alguém em alguma época colocou, e até hoje todos seguem e não sabem o por que.

Para fechar esse post enorme, eu recomendo que leiam algum desses livros de Saramago, de preferência leiam primeiro Ensaio Sobre a Cegueira, e depois veja o filme, mas se quiser fazer o contrário…

Abraços a todos o/